Caminhada em Pendências

No dia 26 de setembro cheguei ao Rio Grande do Norte como quem busca um abraço de quem se quer bem. Na rodoviária me encontro com a mestra Griô Dodora, que me aguardava ansiosa por me conhecer. Peço a bênção a tão sabia anciã, e ela foi quem me conduziu até o meu desejando destino. Depois de duas horas e meia de viagem até a Cidade de Macau e trinta minutos de táxi até Pendências Cheguei ao Casarão de Oficio por volta das vinte e duas horas. Durante a Viagem na estrada tivemos a iluminada campainha da Lua-cheia, que esparramava a sua pele luminosa por toda a estrada, canaviais, rios e salinas e beijava docemente o meu rosto que da janela do ônibus admirava a sua face. Pendências é uma pequena cidade que fica na micro-região do Vale do Açu na voz do Rio Piranhas-Açu no Rio Grande do Norte, com uma população estimada em 13.000 habitantes. O seu nome (Pendências) se originou devido aos embates entres os índios e os colonizadores portugueses. A cidade apresenta uma grande herança indígena. Esses conflitos, foram grandes geradores de histórias de assombração e que toda a cidade respiram esses causos e juram de pés juntos que são verdadeiras visagens.

Fui muito bem recebido por todos do Casarão de Oficio, sinal que não era nenhuma assombração. Após um belo jantar, fui dormir, pois o outro dia havia de chegar e a parteira Aurora acordará o Alumiado para brincar de se encantar e de encantar gente-de-sorriso-de-sol. Por volta das 05:30 da manhã do dia 27, a Parteira Aurora chega batendo na janela da pousada e pousa os seus braços-de-manhã-cheirosa no meu travesseiro, trazendo em suas mãos o Ventre do Sol, de onde o Alumiado sai fazendo salseiro no terreiro com o seu brincar de Sol.

Por volta das 08:00 da manhã, após tomar café, vou para o Ponto de Cultura Casarão de Oficio me encontra coma a Mestra Griô Dodora, a Griô de Tradição Oral Damiana e a Griô Aprendiz Raquel. Passamos mais de Duas horas ouvindo a Mestra e a Griô Tradição oral contando histórias de Assombração da cidade de Pendências. Eu nunca tinha ouvido tantas histórias de assombração em toda minha vida. Eu juro a vocês que fiquei com muito medo a partir dali de dormir sozinho, já tinha comigo, um bom motivo para dormir acompanhado, mas homem fiel que sou a minha solidão, o jeito foi eu me agarrar com o travesseiro e viver essa pendência.

Os contos contados por elas me revelaram uma outra cidade invisível, mas quem tem visagem ver, que existem em Pendências. Além dessas histórias assombrosas, elas me revelaram histórias da vida real, que se soma ao mundo dos, de vez em quando, invisíveis. Essas histórias são levadas para a escola, onde são saboreadas pelos alunos como pude comprovar.

Na noite do dia 27 fomos para a comunidade do Porto Carão, que fica a 7km do centro de Pendências, pois lá seria exibido o vídeo documentário ( Três Mulheres de Pendências ) produzido pelo ponto de cultura. Muito belo o vídeo e enriquecedor. O vídeo foi exibido na escola da comunidade que se encontrava lotada por jovens alunos, professores, a comunidade e os mestres e aprendizes.

Na manhã do dia 28 o nosso destino foi a comunidade do Porto Carão novamente, agora dessa vez para o Alumiado brincar de mais um filho do Sol.

Chegando lá o Alumiado saiu do Ventre do Sol como luz que vem ligeira e deu inicio ao ritual do encantamento. Com o seu coco de chegança fez criança sambar maneiro e professores admirar com olhos saudosos da infância no terreiro. Fizemos ciranda, o Alumiado contou histórias e ouviu muitas histórias contadas e cantadas pelas crianças. É incrível como as crianças sabem varias histórias de assombração. Confesso aqui mais uma vez fiquei com muito medo de me encontra com uma assombração, pois já não mais sabia quem era gente de carne-viva ou gente de carne-morta. Nem quis saber de olhar para meninas na noite, vai lá o que seja?

Pois bem! Depois, o Alumiado saiu em caminhada junto com a criançada, guiados pela Mestra Dodora até o Rio Piranha-Açu, onde sentamos as suas margens e ouvimos toda a história da cidade de Pendência contada pela Mestra. Finalizamos, lavando os pés nas águas do belo rio em ritual de pureza e preservação deste bem natural que os nossos ancestrais indígenas tão bem cuidavam.

E neste fim de dia, o Alumiado foi se pondo e levando em sua roupa retalhada de cores, histórias de um povo que a cada dia se renova nas suas histórias pelas bocas dos mais velhos e dos jovens que são a continuidade da estrada, muitas vezes assombrada.


Guitinho Xambá
Griô Aprendiz da Regional Ventre do Sol - NE