As histórias que nunca foram escritas

O escritor potiguar Gilberto Freire de Melo cansou de esperar pela imprensa e resolveu publicar as reportagens que já ocorreram mas, segundo ele, nunca chegariam ao público. Cidadão do município de Pendências, distante 170 quilômetros de Natal, ele reuniu no livro “Reportagens que ninguém escreveu” algumas informações coletadas no Vale do Açu, e nunca publicadas, desde os anos 70. A obra, com lançamento ainda indefinido, traz 33 histórias em formato de contos que, na visão do autor, dariam belas matérias jornalísticas. “Existem situações dignas de cobertura internacional, como um avião que caiu na região do Vale do Açu em 1944 carregado de material bélico que seria usado na 2ª Guerra Mundial já que os EUA estavam instalados em Natal”, disse.

Freire conta que chegou a presenciar alguns dos casos relatados no livro, mas a maioria soube através de outras pessoas (leia-se fontes, no jargão jornalístico) e procurou cruzar as informações até chegar à notícia verdadeira. Perguntado se entre as histórias poderia haver alguma inverdade, ele garante que não. “Fui atrás de tudo e presenciei várias dessas histórias como o seqüestro do rei do baião Luiz Gonzaga, que ocorreu em 1954 durante os festejos de emancipação de Pendências. Gozagão ia fazer um show em Macau no outro dia, mas tinha que passar por dentro de Pendências. Como a cidade estava em festa, a população liderada por Manoel Freire de Lemos decidiu interceptar o carro dele. Quando a Rural Willys toda enfeitada com as fotos de Luiz Gonzaga parou, o próprio sanfoneiro saiu correndo do carro gritando que estava sendo seqüestrado. Mas não teve jeito. O preço do resgate foi uma apresentação dele em Pendências naquele dia, uma vez que o show em Macau seria no dia seguinte. Ele concordou e tocou até o dia amanhecer”, relatou.

Outra história curiosa presente no livro e que Gilberto Freire garante que não é invenção da cabeça do povo foi a presença, nos anos 20, do raríssimo violino italiano Stradivarius pelas bandas de Pendências. No livro ele conta que o matuto Francisco Rodrigues encontrou o tal violino empoeirado jogado no depósito de uma farmácia da cidade e, chegando na Paraíba ainda sem saber o real valor do instrumento, o vendeu a um desconhecido. “Um senhor que se dizia músico, sem, contudo, revelar sua origem, apareceu em Pocinhos/PB, demonstrando pretensões de adquirir o violino que acabou em suas mãos. Foi tão valiosa a venda que com o dinheiro recebido, seu Francisco Rodrigues comprou uma fazenda e alterou para melhor os seus padrões de vida e de economia até então existentes”, disse no livro.
Serviço

Livro "Reportagens que ninguém escreveu", de Gilberto Freire de Melo. Preço: R$ 15.

Tribuna do Norte
01/02/2007 - Tribuna do Norte