Uma das maiores alegrias experimentadas na atualidade pela pesquisadora bem-sucedida e scholar ilustre da UFRN, Tereza de Queiroz Aranha, 77, é ver a transposição do rico acervo documental que coligiu durante toda a sua vida em torno da seca, suas origens e derivados, complexas extensões e a rede de significados, para o universo virtual, onde permanecerá, de forma perene, num site, ou home page, domínio ou local na Internet constituído por uma ou mais páginas de hipertexto, com seus textos, gráficos e informações em multimídia.
Para a menina nascida no Sítio Saco, em 28, na margem esquerda do Vale do Assu, hoje município de Carnaubais, a transformação de toda sua fortuna documental em linguagem universal de fácil acesso, na rede mundial de computadores dispersos por todo o planeta, permitindo o acesso a seus estudos, como titular do Núcleo de Estudos da Seca da UFRN, de usuários particulares, entidades de pesquisa, órgãos culturais, institutos militares, bibliotecas e empresas de toda envergadura, será o coroamento do combate que escolheu para lutar, e que, partindo de sua aldeia, lança sua figura e sua utopia para a imortalidade.
O presente chega para ela nas proximidades das comemorações do aniversário de Pendências, que completa 52 anos no próximo dia 12, cidade que serviu de base para lançamento de outros projetos, através da Fundação Félix Rodrigues, criada por ela e com homenagem ao nome do povoador de Pendências, tendo como uma das batalhas em sua linha de frente o combate à devastação – crime contra o meio ambiente – da floresta de carnaúbas, hoje praticamente extinta pela sanha da multinacional de Assu, a norte-americana Delmonte.
“Fico muito feliz com o projeto que colocará o Núcleo de Estudos da Seca digitalizado. Com isto ficam na Internet todas as informações. E ali o acervo fica permanente. Eu estou lutando para isto. Agora mesmo eu estou lendo para ser examinadora de uma monografia sobre uma hemeroteca virtual sobre seca. Vai tudo para a internet, que dá acesso a pesquisadores do mundo inteiro.”
Esse espírito combativo, Tereza acredita que deve ao sangue holandês, já que seus pais, a seu ver, filhos do Seridó, sejam descendentes de batavos. “Eu acho que, por mamãe e papai serem do Seridó, há alguma ligação com o holandês. Os dois ramos são: Queiroz e Santos. Santos Avelino, que é de mamãe, e Queiroz, que é de papai. Talvez a ascendência de papai seja de português. Mas o ramo da família de mamãe tem até as características físicas, um povo muito claro, eu acho que é mais holandês. Não tenho certeza, porque nunca me detive a estudar isto.”
De qualquer maneira, uma certeza sobre a herança dos traços militantes das causas sociais vem de seu avô, Manoel Avelino dos Santos, “Papai Neco”, vereador em Caicó, que se entendeu com o presidente Getúlio Vargas sobre a área para a construção da Barragem Oiticica, em 1933, transferindo o projeto para outro setor.
“Eu acho que tenho um traço muito forte do meu avô, que era seridoense. Por volta de 1933, quando quiseram construir a Barragem de Oiticica, meu avô telegrafou para Getúlio Vargas, pedindo para não fazer essa barragem, que iria atingir as propriedades de muitos pequenos agricultores. Getúlio Vargas mandou um emissário, e toda a correspondência telegráfica de meu avô, de Papai Neco, com Getúlio e o Dnocs, eu consegui. Houve um equívoco, porque meu avô não viveu na época da Barragem Armando Ribeiro Gonçalves. Se ele tivesse vivido, certamente ele aceitava mais a idéia de Oiticica.”
A pesquisadora considera sua infância um “período feliz”, apesar das querelas sociais, que iriam despertar na menina, aos oito anos, o fio da profissional da pesquisa, que ela iria assumir na vida adulta, depois de estudar em Areia Branca (primário), Natal e Mossoró (ginasial) até formar-se em Serviço Social, passando a atuar nas lutas que remontam às experiências que lhe marcaram ainda criança.
“A minha infância foi uma infância feliz. Costumo falar a meus netos, quando se discute as disparidades sociais, um exemplo que vivi. No Sítio Saco, onde nasci, papai tinha um morador, chamado Manoel Leocádio, que tinha uma filha, Júlia. E foi essa menina a minha amiga de infância, com quem aprendi a repartir meus brinquedos. Papai mandou buscar uma prima dele no sertão para dar aula à gente. Todos nós participávamos dessas aulas. Tomávamos banho no rio juntas, trazíamos tudo que tinha nas vazantes. Não vi pobreza, nem vi miséria na casa de Manoel Leocádio. É tanto que, quando entrei na Escola de Serviço Social, e me deparei com a miséria através dos estudos dos processos de casos, eu adoeci. Porque era um negócio terrível aqui, no meio urbano. Era um negócio terrível. O que não acontecia no meio rural.”
Tereza é a mais velha de uma família de intelectuais, que conta com o advogado Gerôncio Queiroz, ex-promotor em Macau, e Geraldo Queiroz, ex-reitor da UFRN. “E tem Salete, minha irmã, que hoje tem mestrado e está fazendo doutorado, tem Leda e eu, que sou assistente social. Hoje eu sou mais documentalista. Gosto de guardar documentos, de jornais etc. Eu vim para Natal, em 41, quando terminei meu curso, e papai me botou no Colégio da Conceição (CIC). Aí eu fiz o comercial, o único curso que tinha. Como chegou a (Segunda Grande) guerra, em 42, ele então me retirou de Natal, com medo. Porque era uma época muito conflitante, e me levou para Mossoró. Fiquei uma época em Mossoró interna, depois fiquei externa, quando voltei para o ginasial, porque não tinha comercial. Aí quando eu volto para Natal, faço o Colégio das Neves e, depois, entro para o Serviço Social, em 48.”
A grande marca da sua vida, contudo, o acontecimento determinante, que iria impressionar sua alma de criança e circunscrever o percurso de sua trajetória intelectual, transformando-a, mais tarde numa intelectual orgânica das lutas sociais, seria assistir e vivenciar de perto, aos oito anos, a prisão de seu pai, Francisco Alves de Queiroz, em razão de um favor feito a Manoel Torquato, amigo das vizinhanças e um dos precursores das lutas sindicais no Estado.
Manoel Torquato, trabalhador de salinas, oriundo de Assu, dirigia o Sindicato dos Trabalhadores na Extração do Sal, fundado pela Associação dos Trabalhadores na Extração do Sal, criada em 1931 sob orientação do Partido Comunista, e lutava contra as condições miseráveis dos trabalhadores no sal. Também conhecido como Sindicato do Garrancho, pelas reuniões entre os matagais e sua força de vontade, a entidade chegou a aglutinar cinco mil filiados, incomodando a classe empresarial, que pressiona o governador Juvenal Lamartine de Faria (1928-1930) a rechaçar o movimento.
“Por outro lado”, ela conta, “éramos tomados na minha infância pelo medo. Medo de quê? Medo das grandes enchentes do rio Açu, pois a cada ano papai precisava se locomover com toda a família, já que o sítio ficava na margem do rio. E medo de comunistas. Por conta da luta de Manoel Torquato”, conta ela, citando o líder sindicalista. “Era 1935. Manoel Torquato começou sua trajetória com o pai dele, porque as idéia socialistas entraram no Vale através do protestantismo, na casa do pai de Manoel Torquato, o velho Silvério. E aí, ele foi excomungado pelo padre de Assu, que me batizou, padre Júlio. E Manoel Torquato começou a fazer suas pregações e, já nessa altura, ele misturava religião e sindicalismo, porque ele era do Sindicato do Sal. Tinha idéias revolucionárias e começou a fazer as pregações em locais públicos ou em frente às casas comerciais. Então, papai liberou a frente do estabelecimento dele para Manoel Torquato fazer o que eles chamavam ‘um comício’. E por isto ele foi preso. Eu, então com oito anos, vim de Areia Branca, onde eu estudava, ficar com papai. Fiquei quatro meses com papai dentro da cadeia, em Assu.”
Tereza, que não gosta de falar da vida sentimental, teve poucos namorados. Lembra-se de Wilson Miranda, engenheiro, filho de Caraúbas, que visitava Pendências, e de Romeu Aranha, com quem se casou. “Eu sempre fui mais dedicada a estudo. Foi tudo muito equilibrado. Me casei em Pendências, em 49, de surpresa. Me casei sem fazer alarde, de surpresa, porque meu pai sendo político, aí tinha que convidar todo mundo. Papai era, eu acho que ele era subprefeito. Porque papai foi vereador em Macau, depois foi subprefeito, na época de João Melo, e depois foi o primeiro prefeito constitucional de Pendências. E tenho duas filhas. Uma fez psicologia e a outra, administração, secretariado.”
A Robin Wood de saias
A professora não se acha discriminada em meio à elite potiguar, por estudar a seca, invasões, retirantes e miséria produzida pela indústria da seca, que enriqueceu muita gente e ainda mantém o alto padrão de vida de políticos. Para reforçar seu trabalho, concebe uma fundação, que cria, em 1998, a Fundação Félix Rodrigues, dirigida atualmente pelo Prof. Geraldo Queiroz, e que tem tido uma intensa participação na vida social e cultural de Pendência.
“A idéia da fundação era a gente tentar descobrir fazer valer o papel da carnaúba. Primeiro, para que eles pudessem ter consciência de que não podia haver aquela devastação que está havendo, um verdadeiro crime, um crime inaceitável. Ali, nós fizemos cursos de carnaúba, trouxemos gente da Espanha, com doutorado em papel, para dar aulas em Pendências. O trabalho foi feito por gente de Pendências e, agora, quase todo o pessoal que a gente treinou foi levado para a carcinicultura. Reflete as dificuldades, a necessidade de sobrevivência mesmo. Porque é pagamento de instituto (aposentadoria). Eram pagos R$ 250 e, agora, é R$ 300. Depois, nós conseguimos ainda um trabalho com a Petrobras, que a gente pagava R$ 200 de bolsa ao pessoal de lá. Do pessoal, nós ficamos com 10, foi diminuindo, e agora ficaram cinco. Mas a fundação tem feito muita coisa e ainda vai fazer. Agora mesmo ela foi aprovada como ponto de cultura do Ministério da Cultura. Nós vamos voltar para Pendências.”
Agora, conta que estuda o fenômeno e os episódios dos saques e invasões ocorridos em diversas secas. “Saques, para mim, é um prática cultural. Até certo tempo, ele foi uma prática cultural, enquanto ele saía com a pá e a picareta. Depois, ele virou uma prática política. Em 1958 meu pai foi prefeito, e eu assisti a 500 homens, na frente lá de casa, pedindo pão e trabalho. Então, era uma prática cultural. Que foi desde a época dos índios. Depois, o problema social agravou-se tanto que virou uma prática política. A prática política o que foi? Eles invadiam prédios, invadiam propriedades, porque aí a coisa está estourando.”
Paulo Augusto
Folha de Macau, 15/11 a 15/12/2005