Mediante financiamento, tecnologia sustentável deixa as prateleiras da "torre de marfim" e passa a ser aplicada na preservação do meio ambiente e geração de renda
30/09/2008 10:40:37
No Rio Grande do Norte, o investimento em ciência e tecnologia apesar de não ser o ideal tem um destino certo: o desenvolvimento socioeconômico local. Os resultados obtidos nos últimos anos graças ao empenho e dedicação dos pesquisadores, que tiveram apoio financeiro das agências de fomento à pesquisa, aos poucos vão dando frutos em várias áreas como agricultura sustentável, geração de renda, tecnologia de materiais, preservação de meio ambiente, desenvolvimento de políticas públicas e demais setores da sociedade.
Como exemplo desse momento hegemônico, podemos destacar vários projetos de pesquisa concluídos que se encontram aplicados como também os que estão em andamento e que justificam o reconhecimento de uma instituição local como a melhor do Nordeste, no caso a Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, fato que vem despertando a atenção do poder público para debandar mais investimentos na área de ciência e tecnologia como forma de desenvolvimento e progresso social. Nesse contexto destaca-se o empenho da Fundação de Apoio à Pesquisa – FAPERN, órgão vinculado ao governo do estado, em disponibilizar editais de financiamento para o desenvolvimento de pesquisas.
Os projetos de pesquisa desenvolvidos pelas universidades e institutos de desenvolvimento locais estão diretamente ligados com a economia e preservação do meio ambiente. Como exemplo, no setor de moradia vemos avanços na substituição do forno a lenha por equipamentos elétricos ou a gás natural onde são confeccionadas cerâmicas, tijolos e telhas de excelente qualidade e baixo custo. Também existem as pesquisas ligadas à indústria da alimentação como os projetos de tecnologia em queijo e camarão. Sem falar nos avanços no setor de energia com os estudos na área de petróleo e gás natural.
Para ilustrar a importância dos resultados obtidos por pesquisas desenvolvidas no Estado, destacamos três experiências: uma em agricultura, outra em artesanato e a terceira que trata do reuso de água. De forma resumida e fragmentada, mas sem perder a essência da informação veremos como a ciência vem contribuindo para o desenvolvimento socioeconômico e ambiental do nosso estado.
Agricultura sustentável é sinônimo de diversificação
Quem desejar conhecer a aplicação da ciência na agricultura sustentável basta sair da capital e seguir no sentido Norte, ao passar pela antiga BR-101, em Ceará Mirim, nas proximidades do distrito de Dom Marcolino, logo o visitante se depara com uma vila próspera comparada à bíblica terra de Canaã, mas na verdade é o povoado de Canudos, localizado no Assentamento Rosário.
Criado há dez anos, essa comunidade que abraça 40 famílias provou que através da coletividade a agricultura familiar pode ser um sucesso caso abrace o sistema de cadeias de produção, ou seja, não se prender apenas a uma cultura, mas investir em todas as alternativas viáveis e complementares.
Contando com o apoio da tecnologia agrária desenvolvida nas bases de pesquisa da UFRN os agricultores assentados aprenderam a tirar melhor proveito das culturas tradicionais como mamão e banana, mas também passaram a acreditar em novas culturas. Recentemente, estão sendo implementadas duas novas culturas que são o plantio de girassol tendo em vista a utilização para o biodiesel e também a tilapiacultura, ou seja, a criação do peixe tilápia.
O girassol foi estimulado pela Petrobrás, que visa aproveitar a produção para ser beneficiada pela usina de biodiesel de Guamaré. Já o peixe vai ser adquirido por um frigorífico de peixe do município de Ceará Mirim e o projeto tem a orientação da UFRN que presta assessoria à escolha das áreas dos tanques além de fornecer capacitação e monitoramento das criações. Ao todo serão produzidos 3 mil peixes por cada tanque de criação.
"A palavra de ordem é diversificar e qualificar. É por isso que na sede do assentamento temos um centro de formação do agricultor e aqüicultor, onde temos a chance de nos qualificarmos com técnicos da UFRN, da EMATER e outros órgãos", observou o agricultor Edson Rodrigues.
Reciclagem: artesanato como alternativa de renda e preservação ambiental
Ainda pelo interior, precisamente no município de Pendências, a ciência é utilizada para proteger um dos principais símbolos da cidade que é a carnaúba. Por meio da Fundação Félix Rodrigues, um projeto de transferência de tecnologia para produção de papel artesanal a partir da folha da carnaúba garante ocupação e geração de renda para jovens do Vale do Açu, além da educação ambiental para evitar o desmatamento sem critérios.
A produção de papel artesanal a partir da folha da carnaúba foi uma iniciativa da professora Tereza Aranha, ex-diretora da Fundação, que para desenvolver o projeto de qualificação profissional através do processo de sistematização da tecnologia contou com a ajuda de alguns departamentos da UFRN, contando inicialmente com o departamento de Artes e posteriormente com o departamento de Química, que por meio do seu Programa de Pós-Graduação, um aluno escolheu a sistematização do uso da carnaúba no processo de produção de papel como objeto de pesquisa para a sua dissertação.
O trabalho com a produção de papel artesanal ecológico foi revigorado com a realização de várias oficinas que tiveram a participação do SEBRAE, que possibilitou o aproveitamento do papel produzido como matéria prima para embalagens, pastas, agendas, luminárias, entre outros artefatos
"Esse trabalho faz parte de um processo. A gente espera que em algum tempo, os jovens que participam desse projeto na Fundação possam converter a produção do papel artesanal e dos produtos gerados em renda, o que irá contribuir tanto socialmente quanto ambientalmente para o município, pois a comunidade passa a ter consciência de que é preciso preservar a matéria-prima para a confecção do artesanato que é a carnaúba, árvore símbolo da região", observou Socorro Melo, diretora da Fundação Félix Rodrigues.
Reuso como alternativa ao desperdício de água potável
Em Natal, um estudo desenvolvido pela base de pesquisas de Recursos Hídricos e Meio Ambiente da UFRN visa aproveitar a água dos poços desativados pela CAERN por causa da alta concentração de nitrato. De acordo com o projeto, a água imprópria para o consumo humano deve ser disponibilizada para irrigação da jardinagem pública situada em canteiros, praças, escolas e cemitérios, bem como, hortas comunitárias e hortos florestais.
De acordo com o professor Manoel Lucas, coordenador do projeto, o reuso de água é um procedimento legal normatizado pela Resolução nº 54 do Conselho Nacional de Recursos Hídricos. "Estamos falando de algo sério, que visa contribuir para evitar o desperdício de água potável, pois se trata de uma pesquisa aplicada na qual o conhecimento gerado pela UFRN é transferido para o setor social através do setor público. E nesse contexto, a utilização da água dos poços contaminados é uma forma de poupar água potável, além de garantir um uso para esse nitrato disponível, que é essencial para as plantas. Não só os canteiros e logradouros públicos seriam beneficiados, mas também, mediante acompanhamento especializado, as hortas comunitárias bastante difundidas pela cidade", explicou Manoel Lucas.
Investimento em ciência e tecnologia: um caminho sem volta, mas que depende de investimentos
Ao falarmos em ciência no Rio Grande do Norte, verificamos que o estado ainda está engatinhando nesse campo, longe de qualquer comparação com os grandes centros, mas se levarmos em consideração que em pouco tempo os centros de pesquisa locais deram um salto quantitativo e qualitativo, ou seja, do ponto de vista do desenvolvimento da ciência, estamos bem, pois temos gente (pesquisadores) de excelência com nível e reconhecimento internacional.
Esse salto na área da pesquisa teve início na década de 90, quando mais precisamente em 1995 quando foi criado o Conselho Estadual de Ciência e Tecnologia (CONECIT) que seria responsável por gerenciar o Fundo Estadual de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FUNDET), que prevê a destinação de 1% da arrecadação tributária do Estado para ser investido em pesquisa. Outro avanço, foi a criação, em 2004, da FAPERN - órgão responsável por administrar a aplicação dos recursos oriundos do FUNDET e também responsável por gerenciar recursos provenientes de outras agências de fomento à pesquisa como CNPQ, FINEP e outros fundos setoriais.
Para se ter uma idéia, na UFRN, em 1995, havia apenas 15 cursos de mestrado e doutorado, e de acordo com a Pró-Reitoria de Pós-Graduação, hoje são 33 (trinta e três) Cursos de Mestrado e 11 (onze) Cursos de Doutorado, se configurando como a principal Instituição de Ensino Superior responsável pela maioria das titulações em nível de pós-graduação. Apesar dos avanços na área por parte da academia e do empenho da agência local de fomento aos projetos de ciência e tecnologia ainda falta uma política pública mais arrojada de investimentos no setor, fato que levou os reitores das principais universidades do Rio Grande do Norte a cobrarem dos candidatos ao governo do estado mais atenção para o setor.
De acordo com o Reitor da UFRN Ivonildo Rêgo - em entrevista à Tribuna do Norte, pouco antes de sua reeleição para o terceiro mandato - essas iniciativas tomadas pelos gestores do nosso Estado quanto à criação de um fundo e uma agência de fomento à ciência e tecnologia, embora louváveis, ainda estão longe do que é produzido em outros estados do Nordeste como Bahia, Pernambuco e, até mesmo, a Paraíba. "Nosso Estado, conta com uma estrutura de pesquisa razoável, sendo referência na área de pesquisa de gás e petróleo, mas conta com outras áreas para trabalharmos e para alcançarmos esse objetivo precisamos dar um salto na questão dos recursos destinados à pesquisa. Isso só será possível através de uma política séria de ciência, tecnologia e inovação desenvolvida com independência através de uma Secretaria específica. Ou seja, a gente quer que toda essa capacitação seja utilizada para resolver os problemas do próprio Estado", afirmou o Reitor no final de 2006.
Passados quase dois anos, o Rio Grande do Norte ainda não implantou uma Secretaria de Estado específica para o setor, contudo, os avanços continuam acontecendo e os investimentos, mesmo que timidamente, vão surgindo e comprovando que investir em ciência e tecnologia é um caminho sem volta cujo resultado é o desenvolvimento social.
Luciano Oséas
Jornalista DECOM/UFRN
