JORNAL DE HOJE – 29 e 30.05.2010
Coluna Passe Livre – Rubens Lemos Filho
Cervantes é perfeito ao explicar o que significa uma mãe: é a diligência da boa sorte. Capaz de sair de casa a pé, após sufocantes 90 minutos, e rezar ao pé de uma imagem sacra em plena rua. Mães agradecem no sacrifício.
Assim fez Sabina Pinheiro da Costa em 1967, ajoelhada diante do Padre João Maria, no centro de uma Natal com aspectos de aldeia, poucos ricos e muito calor humano. Uma cidade oposta à de hoje.
Sabina Pinheiro saiu de sua casa, na orla marítima de Natal, hoje ilha dos milionários da capital metropolitana que, em sua época, guardava a virtude de todos se conhecerem. Cada um com suas radicais ideias políticas frequentavam lugares comuns, igrejas semelhantes, orações solidárias.
Na noite embrionária de 1967, Sabina Pinheiro caminhou sem medo, sentimento que na vida dela e de todas as mães inexiste. A diferença monumental entre a mulher e o homem, a maternidade é solitária como o Quixote, de Cervantes: do ventre feminino salta o amor uterino, inigualável, sem comparações. Tamanho imenso que há um cordão de carne a ser separado. Numa família, o pai é o melhor ator coadjuvante.
Filha do sal, do sol, do calor e da irreverência, Sabina Pinheiro nasceu em Macau. Uma feminista ao seu modo e à sua época. Amava a vida sobre todas as coisas. Francisco Elizeu Bezerra da Costa, seu marido, a compreendia, daí a convivência verdadeira ser a aceitação das virtudes e defeitos como a união do bem-querer.
Sabina Pinheiro saiu, naquele 67, a pé e com fé, para se ajoelhar e agradecer a Padre João Maria pelo título conquistado pelo filho, Véscio, meia-esquerda do América, o maior de milênio, prolataram os contemporâneos, hábil, canhoto e rebento. Véscio procurava a mãe após um empate imprevisível que deu ao América o Campeonato de 1967, num gol espírita de Bagadão, o ponta, quando tudo parecia perdido. Foi 1 x 1 contra o Riachuelo. Véscio, driblador que não era encontrado, não achou Sabina.
Sabina antecipara-se na gratidão, sentimento primordial das mães.
Sabina Pinheiro, irreverente, diferente, comovente, viva, lépida e recorrente, apagou sua fogueira. Morreu, 98 anos, no ontem, mais um do mais fúnebre dos anos recentes. Os noticiários tinham mais o que dizer do que sua a história, porque, sem rima, jornalismo hoje é inimigo da memória.
Véscio, Ilo (também jogador) e Núbia herdaram sua felicidade estradeira.
Silêncio, Mãe Sabina, protetora, partiu em diligência.
Cumprindo a sentença de Cervantes.
