Pendências era, para mim, um nome na lembrança... Ecos de boas lembranças do Pe. Zé Luiz que tanto amava esta cidade e a que sempre se referia com um especial carinho como se fosse um lugar mágico onde guardara os melhores dias da sua vida. Por isso é que, para mim, falar de Pendências era lembrar do Pe. Zé Luiz, com quem compus tantas e tantas canções, sobretudo canções natalinas que, à época (anos 60), eram tidas como revolucionárias, canções que foram posteriormente integradas ao Cancioneiro Litúrgico Nacional da CNBB e passaram a ser cantadas, como até hoje, no Brasil inteiro.
Hoje estou aqui, presente na concretude de Pendências, com a sua Praça São João, por onde tenho passado todos esses dias, manhãs e tardes, em direção ao Espaço Cultural “Manoel Rodrigues de Melo”.
Pendências, neste momento, é para mim também um reencontro com outra lembrança feliz. O Dr. Manoel Rodrigues de Melo, cujo nome se reverencia aqui neste espaço cultural, foi quem abriu as portas da Academia Norte-rio-grandense de Letras, da qual era o presidente, para um grupo de moças e rapazes da Escola de Jovens Poetas Natalenses, entidade da qual éramos o presidente e fundador. Na Academia, nos anos 60, realizávamos concursos e festivais de poesia falada e reuniões de jovens como nunca acontecera antes. Por tudo isso, para mim, Pendências é o reencontro de lembranças de uma cidade onde nunca estivera antes.
Venho a Pendências para participar, como instrutor, de um programa de qualificação profissional e onde tive o encanto de conhecer jovens professores de talento e de extrema devotação aos seus alunos, apontados como razão maior do aprimoramento de seus professores. A inteligência e a simplicidade, o saber e a bondade que aqui se humanizam, me enchem de orgulho em conhecer gente assim.
Em minhas impressões de Pendências, destaco o encontro feliz com um belíssimo trabalho desenvolvido neste Espaço Cultural “Manuel Rodrigues de Melo” e na Fundação Félix Rodrigues. Um trabalho onde se vai “tecendo o futuro” nos fios de luz de cada manhã promissora que se amadurece nos frutos que começam a ser colhidos pelos que aqui trabalham... É que o trabalho desses tecelões do futuro nasce da consciência e da valorização da identidade cultural de um povo ávido de buscas e descobertas e a quem se apontam alternativas novas e criativas para construir com as suas mãos, com a sua sensibilidade e inteligência, o seu próprio desenvolvimento. Vemos, aqui, idéias simples, mas de grande potencialidade pela singularidade do seu diferencial competitivo de poder transformador.
O papel de carnaúba me impressionou pela originalidade, leveza e qualidade. Um produto fino com amplas possibilidades de sucesso nos ambientes mais sofisticados. Este produto novo que nasce do que secularmente a natureza vem ofertando a esta Região, pode ser um dos preciosos fios com que os jovens desta terra vão tecendo o seu futuro com alegria e entusiasmo, a partir das douradas palhas da carnaúba, delicadas e resistentes como o coração desta gente daqui.
Parabéns a todos que tornam tudo isso real: o presente que se faz futuro, o futuro que se faz no presente, agora!
Roberto Lima de Souza
Publicado no jornal TRIBUNA DO NORTE em 31.01.2002.