Geraldo Queiroz
O amigo Gilberto Freire pede-me uma retrospectiva das atividades da Fundação Félix Rodrigues para incluir em seu novo livro, que traça um roteiro sentimental da cidade de Pendências. Como atual presidente da instituição, e tendo acompanhado a sua trajetória desde 1997, quando foi criada para suprir carências identificadas junto à população do município, sinto-me estimulado para esse trabalho reconhecendo que, mesmo relativamente jovem, a Fundação já tem uma história a ser contada e compartilhada. História de serviços prestados à região do Vale do Açu, mais diretamente àqueles municípios localizados no baixo-vale, de Assu a Macau.
Tendo optado desde a sua criação por ações de caráter educativo que valorizam a cidadania, ela não seguiu o caminho fácil do assistencialismo. Priorizou como estratégia de trabalho a elaboração de projetos considerados significativos para concorrer a seleções públicas, tanto em âmbito estadual como nacional. Tal comportamento levou-a a ser reconhecida por várias instituições, entre as quais a Fundação Banco do Brasil, que em 2003 certificou como tecnologia social a produção de papel artesanal com a fibra da carnaúba que ela vem desenvolvendo na cidade de Pendências desde o ano 2000, e o Ministério da Cultura (MinC), que aprovou em 2005 o projeto Casarão de Ofícios, classificando-a como integrante da rede nacional de Pontos de Cultura. Na época, o número desses espaços de cultura oficialmente selecionados pelo MinC no estado do Rio Grande do Norte era inferior a dez.
Tal reconhecimento estende-se a vários parceiros que têm investido com capital e outros insumos, viabilizando a execução do que é planejado em benefício da população. Instituições governamentais, empresas e organizações da sociedade civil caracterizam a natureza diversa das parcerias firmadas pela Fundação nesses 14 anos de funcionamento. Petrobras, Ministério do Meio Ambiente, Banco do Nordeste, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Governo do Estado através de várias secretarias, autarquias e fundações, Associação de Apoio a Comunidades do Campo, SEBRAE-RN, Prefeitura Municipal de Pendências e Comissão de Justiça e Paz de Macau fazem parte desse universo de convivência produtiva, cujo grande beneficiário têm sido a região e seu povo.
De suas ações, destaco nesta retrospectiva o Espaço Cultural Manoel Rodrigues de Melo, o Núcleo de Papel Artesanal, o incentivo a manifestações culturais ligadas ao teatro, música e capoeira, além do acesso a equipamentos de informática, disponibilizando-os para crianças, jovens e adultos desde quando eram praticamente desconhecidas na região a informática e suas máquinas.
O mesmo direcionamento de justa homenagem dado ao nome da Fundação pelos seus idealizadores é observado na denominação do Espaço Cultural que a integra: Manoel Rodrigues de Melo. Intelectual nascido na região, o escritor fez desta o motivo principal de sua obra, retratando-a fortemente nas páginas de Várzea do Açu, Patriarcas e Carreiros, Cavalo de Pau e Terras de Camundá. Mesmo com toda a especificidade do Dicionário da Imprensa no Rio Grande do Norte, onde relaciona em centenas de verbetes jornais e periódicos que circularam em 34 municípios do estado no período de 1909 a 1987, ele registra o que encontrou em pelo menos seis municípios do Vale.
Com o objetivo de contribuir para a preservação de sua obra, tornando-a conhecida das novas gerações, a Fundação Félix Rodrigues promoveu em comemoração ao centenário do seu nascimento, em 2007, o concurso de redação Manoel Rodrigues de Melo – o Cronista da Várzea do Açu. Destinou-o a estudantes do ensino médio matriculados em escolas de Alto do Rodrigues, Carnaubais e Pendências, selecionando e premiando os três primeiros classificados. A promoção ensejou a participação de vários estudantes e o interesse de professores e diretores de escolas.
A exposição Emancipação Política de Pendências – o papel de Manoel Rodrigues de Melo, montada inicialmente em Natal, permanecendo aberta à visitação pública na sede da Fundação em Pendências entre 2003 e 2004, iniciara uma série de ações voltadas ao registro e divulgação da memória da região. É dessa lavra também o filme Três Mulheres de Pendências, que conta a história de vida de três professoras: Sabina Pinheiro, Maria das Dores Barbosa e Terezinha de Queiroz Aranha. Com esse documentário se recompõe um panorama cultural com fatos e personagens antigos, importante para o conhecimento dos mais jovens. O filme foi mostrado na TEIA 2007, realizada em Belo Horizonte (MG), reunindo Pontos de Cultura de todo o Brasil. Posteriormente, foi apresentado através de várias emissoras de televisão.
No ano 2000, com apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a Fundação iniciou um processo de transferência de tecnologia para a produção de papel artesanal. O dado inovador da experiência era a utilização da carnaúba, planta típica da região, como matéria-prima para a fabricação do papel. Havia por parte da instituição o propósito de alertar à população para os danos provocados pelo desmatamento do carnaubal que vinha sendo observado, ao que se acrescentava um outro interesse, o de encontrar alternativas de trabalho e renda para minimizar entre jovens os efeitos nocivos da ociosidade. Assim a iniciativa teve prosseguimento, realizando-se várias etapas de capacitação e aperfeiçoamento. Com isso, o trabalho foi diversificado com a utilização de outras fibras vegetais para a produção do papel – como o junco, o croatá, o abacaxi – e a confecção de novos produtos artesanais com o papel produzido. Com certa facilidade, é possível encontrar em alguns hotéis de Natal luminárias confeccionadas com o papel produzido em Pendências.
A partir de 2006 o resultado do trabalho desenvolvido pela Fundação Félix Rodrigues é apresentado ao público através de uma programação realizada anualmente, durante três dias, envolvendo também num rico intercâmbio de criação e aprendizagem artistas e produtores culturais convidados, de outros municípios. Recentemente, foi realizada a IV Mostra de Arte de Pendências, o que demonstra a continuidade salutar do empreendimento. Em todas elas, foi fundamental o trabalho de organização assumido pelo Grupo Jandu-Cari, que desde o início das atividades do Ponto de Cultura Casarão de Ofícios vem colaborando ativamente com a sua coordenadora, Magnólia Margarida dos Santos Morais, função assumida depois por Raquel do Nascimento Barboza e Alexsandra da Conceição Dantas.
Sinto-me satisfeito por dar continuidade ao trabalho tão bem conduzido por Geroncio Santos Queiroz e Maria do Socorro de Melo Pereira, presidentes da instituição que me antecederam. Com certeza, sentimo-nos gratificados – eles, eu e todos que fazem a Fundação Félix Rodrigues – quando nos chegam depoimentos como este do Grupo Jandu-Cari que a seguir, em parte, transcrevo: “com apoio da Fundação Félix Rodrigues, tivemos neste Casarão de Ofícios a possibilidade de retirar das gavetas do esquecimento os nossos sonhos. Estes se tornaram objeto de trabalho e nossos objetivos ganharam estrutura e sistematização. Foi assim que realizamos em outubro de 2006 a I Mostra de Arte de Pendências, momento e local onde foi exposto parte do nosso trabalho”.
Natal, março de 2011
Geraldo Queiroz - Presidente da Fundação Félix Rodrigues.
