Sonhar é Preciso

Corria o mês de julho do ano de 1997 quando jovens estudantes, alguns recém ingressos na universidade e outros concluindo o ensino médio, reuniram-se entre amigos e, tomados por uma ideologia utópica de mudar a realidade do nosso município (Pendências) tal como os jovens que nela vivem, resolveram criar um grupo cultural que passou a se chamar Jandu-Cari. Eram “filhos da terra”, curiosos e interessados nos acontecimentos que marcaram a história deste pequeno município, meio esquecido no interior nordestino.

O nome do grupo deriva das tribos Janduís e Cariris, primeiros habitantes e donos destas terras (era o que se sabia à época; hoje se discute isso) onde hoje se encontra a cidade de Pendências. Aliás, o próprio nome do município tem a ver com eles, pois é fruto das pendências primeiramente ocorridas entre eles e principalmente entre essas tribos e os portugueses colonizadores. A inspiração veio destes conflitos: a coragem desses povos de não se entregarem à escravidão e de lutarem por suas terras nos motivava a seguir em busca de nossos sonhos; a tristeza pela completa destruição dessas tribos e pela falta de valorização do seu legado para esta região nos incomodava e nos motivava a buscar trazer à tona o passado pendenciense e sua cultura, resgatando-os, para que no futuro tivéssemos alguma história.

Os objetivos do grupo naquele momento refletiam esse desejo: conhecer as origens de Pendências, o cotidiano de sua sociedade; sua formação sócio-política e econômico-cultural; resgatar e expor objetos, fotografias, documentos e depoimentos de pessoas que viveram e fizeram a história do município. Todos esses objetivos faziam parte de uma meta principal: despertar na juventude pendenciense (ainda hoje tão alheia) a consciência da importância da história do município para suas vidas e a necessidade de conhecer a cultura da qual ela faz parte.

Apesar da juventude cheia de garra e de coragem, a falta de maturidade fazia muita diferença. Entre as idéias e objetivos, perdemo-nos nos sonhos. O grupo não possuía a unidade; por isso faltou-nos êxito. Apesar do avanço e das conquistas realizadas ao longo do caminho (os depoimentos tomados; os objetos encontrados e as histórias que ouvimos e lemos e que nos deu uma rara capacidade de conhecer melhor as origens de nosso povo e sociedade; o apoio dado por pessoas que conhecemos no caminho e que logo aprendemos a admirar e valorizar, tais como Gilberto Freire, Geraldo e Gerôncio Queiroz e Terezinha Aranha, esta uma grande incentivadora), não logramos sucesso em repassar essas informações adiante, quer por meio das exposições que muito planejamos, quer por meio dos documentos que pretendíamos produzir. Os desentendimentos provocados por ideais de vida diferentes, a falta de recursos financeiros e humanos e a frustração da não realização da I Expo Pendências desestruturaram o grupo, impedindo-o de continuar as suas atividades regulares, o que pouco a pouco levou os sonhos a perderem-se no tempo e a apatia tomar o lugar da determinação de lutar.

Engavetada a ideologia utópica, o grupo ressurge no ano de 2001 por esforço de Ismaelita, Raquel, Geonar e Clepson, membros fundadores do grupo. Dessa vez com objetivos mais enxutos, o grupo empreendeu um trabalho dissertativo objetivando dar origem a um livro contando a história do município e sua cultura. Esbarramos outra vez na falta de recursos e no paradoxo da vida humana: agora tínhamos maturidade e recursos teóricos, mas faltava-nos o precioso tempo disponível dos estudantes secundaristas que iniciaram o trabalho. O grupo entrou mais uma vez em declínio e voltamos a guardar nossos sonhos para momentos futuros.

Agora, com apoio da Fundação Félix Rodrigues, tivemos neste “Casarão de Ofícios”, a possibilidade de retirar das gavetas do esquecimento os nossos sonhos. Estes se tornaram objeto de trabalho e os objetivos ganharam estrutura e sistematização. Foi assim que realizamos em outubro de 2006 a Primeira Mostra de Arte Pendenciense, momento e local onde foi exposto parte de nosso trabalho, este por meio da apresentação à sociedade pendenciense da produção artística dos “filhos da terra”, com destaque para as artes plásticas, cênicas e dança.

Atualmente o grupo Jandu-Cari trabalha na programação comemorativo dos 10 anos da Fundação Félix Rodrigues, que se realiza este ano. Na programação se dará, dentre outras, a Segunda Mostra de Arte Pendenciense, com a perspectiva de ser um evento ainda maior que no ano passado, em que tivemos casa cheia todas as noites e uma freqüência considerável durante as programações diurnas.

Grupo Jandu-Cari

Pendências, fevereiro de 2007.