INTELECTUAL SERTANEJO – (O POTI – 11.12.2007)

Instituto Histórico celebra os cem anos do escritor Manuel Rodrigues de Melo

O solo que fervilha com o calor escaldante do sertão nordestino e no qual a vida, muito cedo, o obrigou a trabalhar no cabo da enxada, foi o mesmo que o jovem sertanejo Manoel Rodrigues de Melo aprendeu a amar. Nele, o menino plantou lavouras, e dele retirou a inspiração para construir uma literatura etnográfica, sociológica, folclorista e cultural cujo traçado das linhas tem sempre como norte a tradução do sertão nordestino. Nascido em uma data cabalística, 7 do 7 de 1907, este ano o intelectual que contribuiu para a estruturação das letras potiguares e foi o principal responsável por erguer a sede da Academia Norte-rio-grandense de Letras, completaria cem anos se vivo fosse.

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Na próxima terça-feira o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN), do qual Manoel foi membro e vice-presidente, irá celebrar o nascimento desse macauense que passou parte de sua vida nas várzeas do Rio Assu. Na ocasião será promovido uma sessão solene, a partir das 20h, na qual Cláudio Galvão e Terezinha Aranha, autores do livro Manoel Rodrigues de Melo - Biobibliografia (1926 - 1995), darão os seus depoimentos sobre o intelectual. "Ele foi um vice-presidente erudito, escreveu vários livros. Foi um antropólogo, folclorista, memorialista e tem uma grande importância na cultura da cidade. Não se pode esquecer essa figura, uma criatura humana espetacular que soube projetar a sua carreira além do estado", ressalta o atual presidente do instituto, Enélio Petrovich.

Outra instituição, da qual ele pertenceu, que pretende também lembrar a data é a Academia Norte-rio-grandense de Letras. "‘Nós já fizemos uma homenagem a ele, pois este ano tivemos dois centenários, o de Manoel Rodrigues de Melo e o de Onofre Lopes, fizemos uma comemoração conjunta", afirma o atual presidente da ANL, Diógenes da Cunha Lima, afirmando que na ocasião houve uma palestra com a professora universitária Salete Queiroz, cuja dissertação foi sobre o referido intelectual. Mas, Diógenes garante que ainda este ano, provavelmente no final deste mês, fará outra homenagem ao pesquisador com uma mesa redonda que contará com a participação de Tereza Aranha e Salete Queiroz.

"A academia o homenageou colocando o nome dele na sede do prédio. Manoel Rodrigues foi um extraordinário folclorista local, estudou os costumes da sua região, o Vale do Assu; escrever o antológico livro Cavalo de Pau e também foi um extraordinário promotor cultural, pois movimentava a academia e telefonava aos amigos sugerindo que eles aprofundassem os estudos, além de estimular as vocações literárias para o universo da pesquisa. Era um homem capaz de grandes atos, era obstinado, tinha metas e conseguia alcançá-las. Precisamos de pessoas como ele no Rio Grande do Norte", sentencia Diógenes.

O HOMEM

Antes de ser um escritor, pesquisador, etnógrafo e estudioso, Manoel Rodrigues de Melo é sobretudo um sertanejo, que embora tenha deixado o seu chão, carregou consigo os costumes, as tradições e toda a bagagem cultural do interior potiguar, ‘‘ele foi, principalmente no começo, um estudioso e pesquisador da vida das comunidades interioranas localizadas no Vale do Assu. A sua infância e adolescência, vivida em Pendências, interferiu em sua vida intelectual’’, ressalta o também pesquisador e biógrafo de Rodrigues de Melo, o professor Cláudio Galvão.

A grande capacidade intelectual e as inúmeras atribuições do escritor, não furtaram do pesquisador hábitos sertanejos, como o fato de se deslocar a pé, mesmo quando já estava morando na capital.

A imagem dele, que sempre trajava paletó, trazendo em um dos braços um calhamaço de jornais antigos e no outro um saco de pão para a ceia familiar, quando amarelo queimado do sol já riscava o céu da cidade, é uma forte referência para a memória visual de Cláudio Galvão, ‘‘ele era um homem de hábitos muito simples, uma pessoa humilde’’. Essa afirmação também se reflete em outras atitudes que faziam parte de seu cotidiano, ‘‘lembro muito que cheguei a encontrá-lo, por diversas vezes, debruçado sobre os arquivos de jornais antigos do Instituto (Histórico e Geográfico do RN), com um bloco na mão anotando as informações fruto de sua pesquisa. Aquilo me impressionou, pois ele já era um pesquisador reconhecido e eu estava começando e fazendo o mesmo que ele. Assim percebi a humildade dele’’, relata.

Galvão, que conviveu certo tempo com Rodrigues, tendo dele se aproximado ainda mais durante as pesquisas para escrever a Biobibliografia, além de enfatizar a importância intelectual e cultural do homenageado para estado, também enaltece a contribuição dele para a ANL. ‘‘A academia tem duas fases, uma antes de Manoel Rodrigues e outra depois dele’’, revela e completa, ‘‘a primeira fase foi um período demorado de estruturação. A segunda fase, a partir dele, se destaca pela excepcional qualidade das revistas produzidas pela academia, pelas semanas de estudos promovidas durante sua administração, que é uma das missões da academia, e pelas conferências que culminavam em publicação de alta qualidade’’.

A estruturação intelectual que Manoel Rodrigues promoveu não foi o único benefício que trouxe para a academia. Através de seu esforço foi o responsável por conseguir, desde a doação do terreno, até a construção da sede da ANL, que continua funcionando no mesmo local até os dias atuais. ‘‘Cada tijolo, até a inauguração, foi um esforço desempenhado por ele, que era um homem que não tinha projeção social, muito menos era rico. Era uma pessoa de uma simplicidade absoluta, de formação religiosa rígida, mariano, católico praticante, humilde. Ele não vivia se projetando. As notícias que eram publicadas sobre ele nos jornais eram devido aos seus atos, e não por causa da imagem dele. Ele construiu a academia com o seu currículo e não com o status’’, afirma Galvão, fazendo questão de descrever a personalidade do pesquisador que esteve na presidência de tal instituição durante 21 anos.

DA LAVOURA POTIGUAR PARA A LITERATURA

Ao deixar o acolhimento do colo materno, Manoel Rodrigues de Melo foi recebido pela vegetação sertaneja presente na fazenda Queimado, propriedade de sua família situada na Ilha de São Francisco, na costa macauense. Aquela criança, apelidada pelos irmãos de Badéu, que cresceu trabalhando a terra com as mãos, não imaginava tornar-se um dos maiores intelectuais do Estado. Quando tinha 10 anos, uma inundação leva a família a abrigarse em Pendências, ainda território de Macau, onde era mais seguro para a prole de oito filho. Lá, ele começou a estudar e ainda muito jovem precisou ir trabalhar nas propriedades de amigos para ganhar a vida. Adolescente vai morar em Currais Novos e lá tem a sua primeira experiência em um jornal, O Porvir, que funda ao lado do amigo Ewerton Dantas Cortês, tendo sido o seu ponto de partida para as atividades literárias.

Natal foi a cidade que o acolheu em 1929, onde passou a estudar na Escola Técnica do Comércio de Natal, tendo se formado em perito contador, atividade profissional que exerceu ao longo de sua vida, empregando-se em seguida como contador do Hospital Juvino Barreto, hoje Onofre Lopes. Na capital iniciou uma trajetória de contribuição em várias publicações, como o jornal currais-novense
O Galvanópolis, A Palavra, o católico Diário de Natal que circulou entre 1927 e 1933, a revista Bando, entre diversas outras. Também casou-se com Laurita Rodrigues de Góis que lhe deu três filhos, Vital, Manoel e Lígia, e participou do movimento Integralista, tendo percorrido todo o estado

Seu primeiro livro foi lançado em 1940, Várzea do Assu:paisagens,tipos e costumes do Vale do Assu, pela paulista Edição dos Cadernos. Nesta obra ele demonstra a paixão pela sua terra, pelas suas raízes. A publicação ainda teve duas outras edições em 51 e 79. Cavalo de Pau (1953) também tem um grande valor, pois fala do universo infantil do sertão. Ele ainda deixou outras grande contribuições como: Chico Caboclo e outros poemas (1957), Terras de Camundá (1972), Patriarcas e Carreiros: influência do coronel e do carro de boi na sociedade rural do Nordeste (1985), Dicionário da Imprensa do Rio Grande do Norte (1901- 1987) publicado em 87, Memória do livro potiguar: apontamentos para uma bibliografia necessária (1994). Publicou diversos artigos em revistas e jornais e assinou apresentações, notas e prefácios. As suas pesquisas, apontamentos e textos foram interrompidos pela sua morte em 29 de fevereiro de 1996.


HAYSSA PACHECO
DA EQUIPE DE O POTI