MANOEL RODRIGUES DE MELO, SEU CENTENÁRIO E O INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO RIO GRANDE DO NORTE.

Cláudio Galvão
(Discurso proferido no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte em Natal, 13 de novembro de 2007, em sessão comemorativa aos cem anos nascimento de Manoel Rodrigues de Melo).

O Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte homenageia na noite de hoje um dos seus mais destacados membros, o escritor Manoel Rodrigues de Melo, no ano que marca o centenário de seu nascimento. Na verdade, poucos tiveram tão importante participação na vida desta casa da memória norte-rio-grandense nos seus cento e cinco anos de existência.

Por aqui, como em todos os lugares e instituições por onde passou, deixou a marca de sua presença através de um trabalho intelectual profícuo, de uma dedicação exemplar e de uma vida reta, sóbria e construtiva.

Sua história entre nós teve início oficialmente a 10 de fevereiro de 1946 quando, em sessão presidida por Nestor dos Santos Lima, teve Manoel Rodrigues de Melo o seu nome aceito como sócio efetivo. Na mesma sessão passaram a pertencer aos quadros do Instituto mais três sócios honorários e cinco correspondentes. Com Manoel Rodrigues de Melo tornaram-se também sócios efetivos Otacílio Cavalcanti e Anfilóquio Câmara. Conforme palavras do relatório do presidente deste Instituto, foram aceitos em virtude de trabalhos especializados e serviços relevantes.

A posse dos novos sócios se verificou na sessão magna do dia 29 de março daquele ano, data em que o Instituto Histórico e Geográfico completava 44 anos de fundação. Na ocasião tomava posse a diretoria eleita para o período 1946-1949 e, por proposta do Presidente Nestor dos Santos Lima, Manoel Rodrigues de Melo foi indicado para o cargo de Adjunto de Tesoureiro, cujo titular era o Dr. Manoel Varela Santiago Sobrinho. Os membros empossados foram saudados por Luís da Câmara Cascudo, agradecendo em nome de todos o sócio Manoel Rodrigues de Melo que, na ocasião, apresentou uma conferência sob título A PROVÍNCIA, SEUS DEFEITOS E SUAS VIRTUDES. O Instituto Histórico e Geográfico tinha apenas 22 sócios efetivos. Atualmente a instituição conta com 89, chegando a mais de 100, contando com os beneméritos e correspondentes.
Manoel Rodrigues de Melo vivia, assim, uma situação pouco comum: a de um sócio que, no dia de em que tomava posse, já passava a participar da diretoria. Exerceu a função de Adjunto de Tesoureiro até 1955. A partir de 1956 até 1973 incumbiu-se da função de 1º Secretário, passando a 2º Vice-Presidente, onde permaneceu até 1983. Naquele ano foi eleito 1º Vice-Presidente, função que exerceu até o ano de seu falecimento, 1996.

Muito mais que simplesmente um sócio ocupando um cargo na diretoria, Manoel Rodrigues de Melo era ativo participante da vida do Instituto. Nunca perdia uma reunião da diretoria; presença constante nestas salas, orientava, aconselhava, sugeria. Muitas e muitas vezes foi visto, debruçado sobre o volume de um antigo jornal, pesquisando e anotando num caderno; era um tempo em que não havia computador nem câmera digital que hoje tanto facilitam o trabalho do pesquisador. Nunca o vi utilizar um gravador de voz, nunca teve bolsistas à sua disposição e jamais remunerou pesquisadores para trabalharem por ele.

Desta busca constante resultaram escritos valiosos que enriqueceram a Revista do Instituto Histórico e Geográfico. Nela foram publicados 21 artigos, no período de 1951 a 1986. Aqui neste auditório apresentou sete conferências, entre 1968 e 1978.
Foram 50 anos de dedicação ao saber, nascida do amor pela terra e gente de seu Estado, direcionada para sua História, seus vultos ilustres, sua produção cultural.

Relembro Manoel Rodrigues de Melo, seus gestos amáveis, seu sorriso sempre presente. Sabendo que eu pesquisava as velhas modinhas de autor norte rio-grandense, sempre que nos encontrávamos perguntava pelo andamento da pesquisa e cobrava a conclusão do trabalho com palavras de estímulo e incentivo.
Poderia inicialmente estranhar-se o seu interesse pela modinha, um tipo de música popular sempre visto como ligado à serenata e, por extensão, à boemia, sendo ele uma pessoa que sempre teve uma vida equilibrada e regida por princípios religiosos. A resposta seria encontrada no fato de que a música popular, sendo uma inegável manifestação cultural, pertencia ao seu campo de interesses, assim como o folclore e outras manifestações a que tanto dedicou atenção e estudos. Além do gosto pela música falava alto o amor à tradição aos velhos costumes da cidade.

Para reforçar este raciocínio, vamos considerar um artigo que escreveu em jornal da cidade sob título MODINHAS E MODINHEIROS NATALENSES, que foi incluído como abertura do livro TROVADORES POTIGUARES, escrito pelo também sócio deste Instituto Gumercindo Saraiva, e publicado em 1962. Nele Manoel Rodrigues de Melo expõe suas dúvidas, faz perguntas, encaminha sugestões. Então, revela-se profundo conhecedor do assunto, ao lembrar ao autor a inclusão de tão numerosas modinhas, nomeando autores de letra e música. Poderia citar tantos títulos sem conhecê-los? Se não cantou em serenata cantou para si próprio, evocando o clima emocional que viveu nos tempos em que chegou a Natal.

Consta da ata da reunião em que Manoel Rodrigues de Melo foi admitido no Instituto Histórico e Geográfico que ele foi aceito em virtude de trabalhos especializados e serviços relevantes. Corria o ano de 1946 e já havia publicado as primeiras edições de VÁRZEA DO AÇU e PATRIARCAS E CARREIROS, saídos em 1940 e 1944, respectivamente. Não admira que fossem considerados trabalhos especializados e serviços relevantes. Tais publicações logo se tornaram clássicos dos estudos norte-rio-grandenses que versam sobre a sociologia e a cultura da região do Rio Açu. Ambas as obras tiveram mais duas edições, anos depois.
Completaria a tríade o livro CAVALO DE PAU, publicado em 1957. Pode-se afirmar que não se pode conhecer a cultura sertaneja oestana e, mais particularmente do Vale do Açu sem o estudo destes três livros de Manoel Rodrigues de Melo, indispensáveis pelo rico conteúdo de informações e pela propriedade das conclusões.
Poucos sabem que os seus primeiros escritos foram, em grande parte, poemas. Mais tarde o poeta cedeu lugar ao pesquisador e historiador, e a lira ficou desativada até 1957, quando publicou CHICO CABOCLO E OUTROS POEMAS. No campo do romance, TERRAS DE CAMUNDÁ era dado a público em 1976.
Em que livros e autores teria este escritor lido e aprendido tudo o que escreveu? De onde colheu os temas, as imagens poéticas, as informações sobre os personagens, os usos e costumes que descreveu e estudou?
Manoel Rodrigues de Melo nasceu a 7 de julho de 1907, na Fazenda Queimado, em plena várzea do Açu. Sua infância foi semelhante à dos meninos do interior, longe da influência da cultura urbana, mas crescido e alimentado pelo rico cabedal da sabedoria ingênua e ao mesmo tempo profunda de seus ancestrais. Vivendo num meio estritamente rural, aprendeu a conviver com os rigores do clima, vivenciou as secas e fugiu das cheias, sofreu as conseqüências que a todos atingiam, cultivou a terra hostil. Mãos juvenis no cabo da enxada, irmanou-se a tudo e a todos, aos homens, aos animais, à natureza. O eixo de sua obra é, portanto, o reflexo de sua vida. Seu universo temático brotou muito antes dos livros; seus primeiros e mais importantes mestres foram a terra e o povo, auferindo destes a sabedoria que reflete a lenta sedimentação de usos e costumes seculares.

Além das obras citadas, não se pode deixar de mencionar a importância de mais dois de seus livros – por sinal os únicos a refletir a chamada cultura erudita, que não sofreram a influência do seu ambiente primitivo. O DICIONÁRIO DA IMPRENSA NO RIO GRANDE DO NORTE, publicado em 1987, logo se tornou obra básica e indispensável ao conhecimento do tema. Em 1994 veio seu último trabalho MEMÓRIA DO LIVRO POTIGUAR, um manuscrito que o autor havia esquecido, mas felizmente encontrado em meio a seus papéis pela pesquisadora Tereza Aranha.
Impossível, também, deixar de mencionar a sua mais que numerosa colaboração em jornais e revistas; a exigüidade de tempo impede também um comentário sobre suas outras atividades intelectuais, como fundador e redator de periódicos, estudioso e estimulador do folclore, e tantas mais.

Ao concluir este momento, devo afirmar o quanto me beneficiou haver conhecido Manoel Rodrigues de Melo e dele obter os dados que me permitiram redigir uma sua breve biografia. Igualmente afirmo o quanto me honrou a indicação do Presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte para falar-lhes neste momento.

Senhoras e senhores, na história dos benfeitores da humanidade há um grupo numeroso dos que pouco produziram e muito fizeram para não ser esquecidos. Há também um número menor dos que muito fizeram, sem a preocupação de ser reconhecidos.
Manoel Rodrigues de Melo tem um enorme currículo de estudos e trabalhos voltados para a sua terra e seu povo. Sua personalidade autêntica, sua formação religiosa e seu conhecimento da psicologia popular moldaram-lhe atitudes modestas e reservadas. Muito fez e nunca se vangloriou, agiu e não se envaideceu; pelo que deu à sua terra não esperou retribuições nem agradecimentos.
Na carência de palavras para melhor descrevê-lo, valho-me de um trecho do discurso proferido por Luís da Câmara Cascudo quando, na noite de 29 de março de 1946, daqui desta tribuna, saudou o novo sócio efetivo:

Assim Manoel Rodrigues de Melo. Gerações de trabalhadores do campo, vaqueiros e lavradores, carreiros e heróis da enxada, dominadores do fogo, vencedores das enchentes, conquistadores das várzeas, plantadores de povoações amaram, rezaram nos humildes oratórios familiares, desconhecidos, anônimos em sua massa fervorosa curvada para o solo, semeando e colhendo, guardando pensamentos e capitalizando sensibilidade, para que o neto longínquo, emigrado da paisagem verde do rio Açu, varzeano educado entre os granitos do Seridó, vencesse na capital do Estado, escrevesse livros, pronunciasse conferências, criasse jornais e dirigisse revistas, tivesse o seu nome entre aqueles que construíram o mais alto colégio intelectual do Rio Grande do Norte, fiel aos lumes das doces recordações, sempre saudoso dos seus, com sua terra inteira, homens, cenários, episódios no coração, vigiando o caráter para que não desminta jamais as lições fervorosas ao entardecer, na hora das Trindades, no alpendre da casa grande do QUEIMADO, vivendo para o futuro, combatendo o bom combate, guardando a fé!...

1 – VÁRZEA DO AÇU. 1ª edição: EDIGRAF – Edição dos Cadernos. São Paulo, 1940. Prefácio de Luis da Câmara Cascudo. 2ª edição: AGIR, Rio de Janeiro, 1951. 3ª edição: São Paulo, IBRASA, [Brasília], INL, 1979.
2 – PATRIARCAS E CARREIROS. 1ª edição: Editora Tradição, Recife, 1944. 2ª edição: Irmãos Pongetti Editores, Rio de Janeiro, 1954. 3ª edição: Editora Universitária, Natal, 1985.
3 – CHICO CABOCLO E OUTROS POEMAS. Irmãos Pongetti Editores, Rio de Janeiro, 1957.
4 – CAVALO DE PAU. Irmãos Pongetti Editores, Rio de Janeiro, 1953.
5 – TERRAS DE CAMUNDÁ. Irmãos Pongetti Editores, Rio de Janeiro, 1972.
6 – DICIONÁRIO DA IMPRENSA NO RIO GRANDE DO NORTE. Fundação José Augusto/Cortez Editora. Natal/São Paulo, 1987.
7 – MEMÓRIA DO LIVRO POTIGUAR. Editora Universitária, Natal, 1994.