Terezinha de Queiroz Aranha
(Discurso proferido no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte em Natal, 13 de novembro de 2007, em sessão comemorativa aos cem anos nascimento de Manoel Rodrigues de Melo)
Pelas mãos invisíveis de Manoel Rodrigues de Melo chego ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, atendendo a um convite do seu Presidente, para homenageá-lo no centenário de seu nascimento.
O seu convite, Dr. Enélio, me fez pensar em solicitar a Vossa Senhoria que me permita também neste momento assumir o título de sócio desta Casa de Cultura, cujo convite foi feito por Vossa Senhoria há alguns anos atrás. Apesar dos anos haverem passado, e reiteradamente ser cobrada para a posse, sempre eu lhe dizia que um dia chegaria aqui com o objetivo de atender esse gesto tão delicado e para mim tão honroso. Lembra-se ?
Pessoalmente não há data mais significativa para mim. Será um acaso feliz se puder receber esse título no dia em que posso dizer aos sócios do Instituto e aos amigos que aqui vieram render homenagem ao grande norte-rio-grandense da Várzea do Açu o que foi possível fazer para resgatar e institucionalizar a sua memória aqui em Natal, capital do Estado, e no município de Pendências, nossa terra comum.
Em Natal a parceria feita com o amigo Cláudio Galvão, companheiro de memoráveis momentos na Universidade Federal do Rio Grande do Norte e particularmente no Núcleo Temático da Seca, marcou o início desse resgate, através do livro Manoel Rodrigues de Melo - Biobibliografia (1926-1995), publicado pela Editora da UFRN.
A generosa e valiosa disponibilidade de Cláudio para enriquecer a memorialística do Estado afirma seu espírito público de servir à cultura de nossa terra através do saber.
Com Cláudio, resgatamos a biografia e a produção literária de dois norte-rio-grandenses que as sucessivas gerações desse Estado não podem esquecer: Dr. Oto de Brito Guerra (1912-1996) e Manoel Rodrigues de Melo (1907-1996).
No caso particular de Manoel Rodrigues, ou "Badel”, como o conheci desde a minha juventude, estimado, respeitado e admirado pelos seus conterrâneos, a minha participação refere-se ao levantamento de sua produção literária correspondente ao período de 31 anos: 1926 a 1995.
Este trabalho teve o assessoramento das bibliotecárias Rilda Antonia Chacon Martins, Terezinha Anibas da Cunha e Gildete Moura de Figueiredo.
A primeira parte dessa Biobibliografia trata da produção de Manoel Rodrigues de Melo – livros, artigos em revistas, jornais, apresentação/notas e prefácios, poliantéias e separatas, registrando um total de 256 títulos e mais 26 artigos de sua produção na Revista A Juriti, editada por Aluízio Macedônio Lemos, cujos exemplares não foram localizados, mas estão referidos no seu Dicionário da Imprensa do Rio Grande do Norte (1909-1987), publicado pela Fundação José Augusto na Coleção Documentos Potiguares em 1987.
Na segunda parte levantamos o que foi escrito sobre Manoel Rodrigues de Melo em jornais locais e nacionais, nas Revistas Tradição, Bando, Nordeste, nas Revistas da Academia Norte Riograndense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e outras publicações da Comissão Nacional do Folclore, totalizando um somatório de 205 registros.
Apaixonada que sou por documentos, este é um livro que, espero, a velocidade do tempo não impeça de, com o apoio técnico de documentalistas, podermos produzir uma 2ª. Edição com o material encontrado por mim depois de sua morte.
O acontecimento de sua morte estimulou em Lígia, sua filha, o desejo de salvar do esquecimento e preservar para as futuras gerações, além da produção literária de seu pai, os livros, revistas, manuscritos, cartas, notas biográficas, manuseados por ele durante dias, semanas, meses e anos, demonstrando com isso sua natural vocação para a leitura e a escrita, o que o levou a ser chamado “Doutor da Universidade do Saber” pelo jornalista Valério Andrade, em registro feito na Tribuna do Norte de 07 de junho de 1994, na seção “Gente que é notícia”.
Essa determinação de Lígia me levou a procurar a socióloga e pesquisadora Ana Amélia Nogueira Fernandes, na ocasião trabalhando no Centro de Documentação Cultural da Fundação José Augusto, para com ela estabelecermos contato com o então Presidente daquela instituição, jornalista Woden Madruga, que, como bom gestor de cultura, se dispôs imediatamente a criar as condições necessárias para a realização de um trabalho que dignificasse a memória de Manoel Rodrigues de Melo, um dos expoentes do passado cultural desse Estado.
Hoje, posso dizer a Lígia que, com a ajuda de amigos dedicados, o seu objetivo foi alcançado. A biblioteca e documentos deixados por seu pai foram e estão sendo resgatados por duas Instituições, em Natal e em Pendências, que servirão de elo para o aprendizado das novas gerações, e que se pode traduzir em:
● Cinco mil títulos, doados pela família, ao Núcleo Manoel Rodrigues de Melo, no Solar João Galvão, da Fundação José Augusto. Quando de sua inauguração, em setembro de 2002, foi lançada a edição fac-similar do livro Cavalo de Pau e aberta uma exposição com peças do seu acervo de escritor e pesquisador.
● Um precioso acervo sobre o Vale do Açu e região salineira de Macau, ainda não quantificado, que enriquece o Espaço Cultural Manoel Rodrigues de Melo, fundado em 11 de novembro de 1988 em Pendências, sua terra natal. Parte deste acervo pode ser visto no site da Fundação Félix Rodrigues na internet: www.felixrodrigues.org.br.
Em 2003, foi realizada por essa Fundação a exposição Emancipação Política de Pendências – O Papel de Manoel Rodrigues de Melo, em comemoração ao cinqüentenário daquele município. Inicialmente, a exposição foi montada em Natal, na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte, em junho daquele ano, transferindo-se depois para Pendências, onde ficou exposta até 12 de dezembro, data oficial da emancipação política do município.
Agora em 2007, ano do centenário de seu nascimento, a Fundação Félix Rodrigues, hoje Ponto de Cultura do Programa Cultura Viva do Ministério da Cultura, avançou no resgate da sua memória. Na 2ª. Mostra de Arte de Pendências, realizada de 13 a 15 de setembro, foi feito o lançamento do Concurso de Redação Manoel Rodrigues de Melo: o cronista da Várzea do Açu, destinado a alunos do 2º. Grau dos municípios de Pendências, Alto do Rodrigues e Carnaubais.
Vinculando o concurso ao sistema de ensino, nosso objetivo é divulgar a sua produção, esperando que ela possa ampliar o acervo de conhecimentos da instituição escolar e possa despertar na juventude varzeana o desejo de amar sua terra o quanto ele amou. Prova disso são as reflexões contidas no questionamento que ele mesmo faz, quando estuda as cheias do rio, no livro Várzea do Açu:
Que drama misterioso é esse que há entre a terra, o rio e o homem do Açu?
Muito Obrigada.