A história que poucos conhecem [O POTI - 18.01.2009]

O Jornalista Arlindo Freire foi o primeiro presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Norte
No ano de 1640, cerca de cinco mil índios aguardavam, em Santana do Matos, o auxílio dos holandeses para combater as tropas portuguesas, que queriam dominar todo o território do Rio Grande do Norte. A ajuda militar, prometida para a tribo Tarairiú, sob o comando do cacique Janduí, nunca chegou ao território potiguar.

Esse é apenas um episódio de uma parte da história do Rio Grande do Norte pouco estudada nas escolas e pouco comentada pelos estudiosos. O resgate desse importante trecho, situado no século XVII, é um dos objetivos do livro "Marana Pabeima" - que em tupi guarani significa Guerra Infinita. A obra é resultado de anos de pesquisa do jornalista e sociólogo Arlindo Melo Freire e está em fase de edição na Imprensa Oficial.

O trabalho de pesquisa sistemática teve início no ano de 2001, mas o interesse de Arlindo Freire pelo tema é muito mais antigo. O jornalista lembra-se que, no final da década de 1960, quando visitava seu irmão, Aldo de Melo Freire, em Recife, teve o primeiro contato com o assunto. "Aldo sempre teve sua formação humana voltada para o social e o popular, preocupando-se principalmente com os excluídos. E os índios estão neste conjunto. Em uma das visitas que fiz a ele, tive contato com um dicionário tupi guarani e comecei a me interessar", explicou.

Mas para chegar ao resultado final, seu caminho não foi fácil. As pesquisas lhe custaram horas de leitura e noites sem dormir, sacrifício do qual o pesquisador não reclama. Adquiriu vários livros que embasaram seus escritos, estabelecendo um diálogo com outros autores, como Câmara Cascudo, além de outros colegas com quem trocou idéias preciosas, como Olavo de Medeiros Filho, Tereza Aranha e Rosáfico Saldanha Dantas. Outra importante influência em sua linha de pesquisa foi o escritor Manoel Rodrigues de Melo que, o próprio Arlindo caracteriza, como sua fonte inspiradora.

A maior preocupação do escritor durante a construção de seu trabalho era socializar a verdadeira interpretação dos fatos relacionados à história dos índios no Rio Grande do Norte, tendo como ponto de partida os conflitos decorrentes da chegada dos europeus. "Parti do descobrimento do Brasil, fazendo a contextualização com a situação de guerra na Europa. Um ponto que precisa ficar claro é que os europeus não vieram para o Brasil por uma ação voluntária, mas sim para fugir da miséria e das guerras", ressaltou.

Heróis

Entre os personagens resgatados por Arlindo Freire estão o cacique Janduí, líder da tribo Tarairiú, que se estendia pela região de Assu, Santana do Matos e Acari e grande parte do Nordeste. Inicialmente aliado dos portugueses, Janduí vinha muito a Natal mantendo uma relação amistosa com os índios potiguares, com os quais trocava diversas mercadorias, como caju e sal.

No decorrer dos anos e ao perceber o desinteresse português às necessidades de sua tribo, Janduí aliou-se aos holandeses, tendo-lhe sido negado, por represália, pão e água.

Sua força junto ao seu povo era tanta que, em determinada ocasião, trouxe a Natal três mil índios guerreiros para combater a favor dos holandeses. "Muito de sua decisão teve a influência de Rodolfo Baro, a quem ele tratava como filho", explicou o pesquisador.

Rodolfo Baro, holandês de nascimento, foi deixado na tribo de Janduí, ao sete anos de idade, sendo criado pelo cacique como se fosse um verdadeiro indígena brasileiro. E foi Baro quem, 30 anos após ter sido deixado com os indígenas, intermediou todo o contato dos holandeses com a tribo do Rio Grande do Norte. "Ele era contundente em suas posições a favor da guerra entre Portugal e Holanda, acreditando, principalmente, na defesa dos direitos do povo indígena. Para Baro, era uma guerra pela liberdade daqueles a quem ele acreditava ser seu verdadeiro povo", argumento Arlindo Freire.

Freire ainda ressalta que o último registro que se tem de Baro foi um combate às margens do Rio Potengi, não havendo mais nenhuma informação.

De Janduí, mesmo sendo um grande guerreiro e de importância fundamental nos combates, não há nenhum registro de como ocorreu sua morte, nem onde e quando.

Outro importante guerreiro foi Paraupaba, que viveu uma geração após Janduí, mas que foi um importante líder contra a dominação portuguesa. De acordo com Arlindo Freire, Paraupaba, ao perceber que os portugueses estavam cada vez mais fortalecidos, retirou seu povo do território norte-rio-grandense, indo para o estado do Ceará. "Cerca de cinco mil índios ficaram dois anos na Serra de Ibiapaba, esperando a ajuda dos holandeses, que nunca chegou. Ele foi um herói, pois salvou seu povo de ser massacrado”.

No entanto, com fome e doenças desconhecidas, a tribo acabou por ser dizimada.

Mesmo assim, para o pesquisador, esse é um exemplo que não morrerá jamais. "O nosso Paraupaba foi um herói sem nome e tradição, porque a sua iniciativa para a organização social de Ibiapaba, mesmo sabendo-se que foi um fracasso, ter servido de modelo para outras gerações".

Para os que quiserem conhecer mais sobre a pesquisa de Arlindo de Melo Freire terão de esperar para que a edição do livro seja concluída o mais breve possível.

“Questionar problemas faz parte de minha vida”

Aos 74 anos de idade e 48 dedicados ao jornalismo, Arlindo Freire dá novo ânimo a sua carreira profissional agora com a pesquisa sobre a participação indígena na história do Rio Grande do Norte.

Seu novo trabalho, que na verdade permeou grande parte de sua carreira profissional, tem muito de sua experiência profissional, conquistada nos principais jornais impressos do estado e do país.

Destaque para A Ordem e a Rádio Rural, dois veículos de comunicação ligados à Igreja Católica e que tiveram grande importância no desenvolvimento da comunicação no estado. Arlindo também deu sua contribuição ao jornalismo potiguar nas redações do Correio do Povo, Diário de Natal, Tribuna do Norte, além de ter sido correspondente durante 11 anos, do jornal O Estado de São Paulo, e da Revista Visão.

Porém, sua marca e maior contribuição ao jornalismo do Rio Grande do Norte foi o fato de ter sido o primeiro presidente do Sindicato dos Jornalistas, em um movimento histórico da categoria para elegê-lo. "Era um sonho que conquistei com o apoio de grandes amigos, entre eles Afonso Laurentino", recordou o jornalista.

E esse seu sonho não acabou. Arlindo tem diversos projetos para a categoria, como a edição de uma revista impressa, reunindo estudantes e profissionais do jornalismo potiguar, com textos inéditos.

Indagado se alguma vez pensou em seguir outra carreira, o jornalista é enfático: "Não me vejo fazendo outra coisa. Escrever, questionar e levantar problemas fazem parte da minha vida", finalizou.

Valeria Credidio
DA EQUIPE DO DIÁRIO DE NATAL