Fundação Félix Rodrigues ajuda a gerar renda

Com o objetivo de encontrar novas formas de ocupação e geração de renda para os jovens do Vale do Açu, a Fundação Félix Rodrigues, com sede no município de Pendências, vem desenvolvendo um trabalho de transferência de tecnologia para a produção de papel artesanal a partir da palha da carnaúba, árvore símbolo da região que nos últimos anos vem sofrendo com o desmatamento sem critério nem controle ambiental.

Segundo Socorro Melo, diretora-presidente da Fundação, o trabalho além de promover inclusão social, através da capacitação de pessoas para a reciclagem da folha da carnaúba e outras plantas também contribui no processo de educação ambiental chamando a atenção da comunidade para a importância da preservação do meio ambiente que também funciona como patrimônio cultural da região.

A produção de papel artesanal a partir da folha da carnaúba teve início em 2000 por iniciativa da professora Tereza Aranha, ex-diretora da Fundação, que para desenvolver o projeto de qualificação profissional através do processo de sistematização da tecnologia contou com a ajuda de alguns departamentos da UFRN, contando inicialmente com o departamento de Artes e posteriormente com o departamento de Química, que por meio do seu Programa de Pós-Graduação, um aluno escolheu a sistematização da carnaúba no processo de produção de papel como objeto de pesquisa para a dissertação.

Em 2003, a Fundação levou para Pendências a artista plástica Miriam Pires, de Goiânia, que na época cursava o Doutorado na Espanha. Pires ministrou para um grupo de 20 jovens o curso avançado de Papel Artesanal - Arte e Ecologia. A partir desse curso, o grupo passou a trabalhar, além da carnaúba, com outras fibras vegetais como a bananeira, abacaxi e o junco que resultaram em outras texturas e cores possibilitando a confecção de inúmeros trabalhos artesanais que utilizavam como matéria prima o papel artesanal. Um trabalho reconhecido pela Fundação Banco do Brasil como única experiência selecionada no Rio Grande do Norte, em 2003, para receber o certificado de tecnologia social.

No ano passado, com a aprovação do projeto Casarão dos Ofícios pelo Ministério da Cultura para ser um Ponto de Cultura no RN, o trabalho com a produção de papel artesanal ecológico foi revigorado com a realização de várias oficinas que tiveram a participação do SEBRAE, que possibilitou o aproveitamento do papel produzido como matéria prima para embalagens, pastas, agendas, luminárias, entre outros artefatos. O resultado das oficinas foi exposto pelo SEBRAE na I Fashion Week realizada em Natal, no ano passado.

"Esse trabalho faz parte de um processo que ainda está engrenando. Agente espera que em algum tempo, os jovens que participam desse projeto na Fundação possam converter a produção do papel artesanal e dos produtos gerados em renda, o que irá contribuir tanto socialmente quanto ambientalmente para o município, pois a comunidade passa a ter a consciência de que é preciso preservar a matéria-prima para a confecção do artesanato que é a carnaúba, árvore símbolo da região", observou Socorro Melo.
Em defesa da cultura e do meio ambiente

A instituição que homenageia o fundador do município de Pendências, Félix Rodrigues, e também um dos maiores expoentes da literatura potiguar, Manoel Rodrigues de Melo - um dos fundadores do movimento modernista Bandoleirismo -, completa no próximo dia 9 uma década de trabalho em defesa da cultura e do meio ambiente.

Para tanto, o Casarão dos Ofícios, sede da instituição, abrirá as portas a partir das 19h com uma programação diversificada para comemorar o aniversário de 10 anos de sua criação.

A festa será aberta com ato ecumênico celebrado pelo padre Antônio Murilo de Paiva e pelo pastor evangélico Evaldo Raimundo Pereira da Silva. Na seqüência, o grupo de flautas Sabiá fará exibição de gala aos convidados. Além das apresentações, também serão lançados o livro do escritor local Gilberto Freire de Melo intitulado “Reportagens que ninguém escreveu” e o site institucional da Fundação Félix Rodrigues.

Espaço cultural preservado

Além do núcleo de produção de papel artesanal, a Fundação Félix Rodrigues mantém o Espaço Cultural Manoel Rodrigues de Melo que desenvolve atividades de literatura, música, teatro e preservação da memória da região, além de promover a inclusão digital do pessoal envolvido com os projetos da instituição.

É através desse espaço cultural que a Fundação se esforça para preservar a memória da cidade oferecendo a oportunidade aos mais jovens de conhecer um pouco da história do município e da cultura locais. O trabalho de levantamento de documentos históricos, fotografias e artefatos que servem para reconstruir a memória da cidade é feito pelo grupo de pesquisadores Janducari, que no ano passado realizaram a Primeira Semana de Arte de Pendências que durante os três dias chegou a reunir cerca de mil pessoas.

Segundo o professor Geraldo Queiroz, ex-presidente e atual voluntário da Fundação, um belo trabalho desenvolvido pelo Casarão é o Grupo de Flautas Sabiá que conta com a participação de 40 crianças, com idades entre sete e 14 anos, que já se destacam na região recebendo convites para se apresentar em escolas, igrejas e demais eventos realizados não só em Pendências, mas em diversos municípios vizinhos como Macau, Alto do Rodrigues, Carnaubais e Ipanguaçu.

Outro trabalho cultural desenvolvido com bastante êxito é o teatro EmCena que conta com a participação de 25 jovens que estudam e executam peças teatrais. Como as crianças que tocam flauta, os jovens atores e atrizes também são convidados para se apresentar em vários eventos na região.

A Fundação também se engaja em eventos sociais de amplitude na região como o Projeto Jovem em Ação Ambiental, realizado no segundo semestre do ano passado que trabalhou a educação ambiental através de seminários, palestras, oficinas. O eventos foi idealizado pelo Instituto de Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente do RN (IDEMA) e executado pela Comissão de Justiça e Paz, de Macau, em parceria com a Fundação Félix Rodrigues, que envolveu 90 jovens dos municípios de Açu, São Rafael, Itajá, Ipanguaçu, Carnaubais, Alto do Rodrigues, Pendências, Porto do Mangue e Macau.

"É um trabalho bonito que tem como missão a inclusão social, a geração de renda, o resgate da memória local e a preservação do meio ambiente". Um exemplo que deveria se multiplicar na própria cidade e em outros municípios. E tudo só foi possível porque o Casarão dos Ofícios, onde funciona a Fundação, tem como coordenadora uma pessoa que mora e vive para a cidade que é a historiadora Magnólia Morais, que também conta com o apoio indispensável de muitos voluntários da terra, mas que moram fora como eu, Socorro Melo e Tereza Aranha, que damos suporte aqui de Natal, através da busca de parceiros e financiamentos.
Serviço

O Casarão dos Ofícios fica localizado na Praça Luiz Gonzaga, 76, Pendências - RN.

Luciano Oséas - Repórter
Tribuna do Norte - 04/03/2007